É inquestionável que o acaso seja o senhor do Mundo, reservando-nos, sob o sacrossanto manto da imprevisibilidade, surpresas que viajam desde os recôncavos do desolador até os píncaros do júbilo extasiante.
Sempre cri que a felicidade repousa na vestimenta que escolhemos ao despertar. Não obstante qual seja a curvatura de nossos lábios, o dia de hoje terá vinte e quatro horas, far-nos-á um pouco mais velhos, transcorrerá no diapasão da maçante rotina pincelada com tintes de mesmices e a crescente sensação que algo se deixou de fazer.
Com o esgar sorumbático ou com os dentes à mostra a resplandecer a face, nada, nem ninguém, poderá mudar o inexorável caminhar do tempo.
Portanto, creio mais sábio a aposta na felicidade. Especialmente por que o insondável sempre está à espreita. E, com o espírito enlevado pela alegria, nós, falíveis e frágeis mortais, estaremos mais preparados para recebê-lo, seja em sua face mais sombria, seja com seus bálsamos de prazer.
Hoje, como procuro obrigar-me a cada alvorecer, indiferente às brumas de fantasmas que meus quarenta e cinco anos foram pródigos em produzir, saltei do berço com um especial bom humor.
Hercúleo labor, frente minha imberbe situação financeira, minha precária região lombar, ninho de uma profusão de papagaios, minha acuidade visual, já lacerada pela presbiopia e meu doentio amor pelo Sport Club Corinthians Paulista, que não obstante seus já cinqüenta e um pontos, segue sendo o VIGÉSIMO PRIMEIRO time nacional.
Fato é que este meu já famoso bom humor fez com que eu pudesse hoje regozijar-me com o inesperado.
Levado pelo lancinante mister filial de acompanhar minha mãe em sua admirável luta contra suas úlceras varicocele, quis o destino que me fosse permitido buscar minha amada sobrinha GIULLIA na creche onde estuda, ou, como imagino, promove erupções de toda ordem, no seu mais perfeito estilo menina-mimada-espevitada-hiperativa-encantadora de ser. Uma pausa aqui para meus cumprimentos aos heróis do Lidia Fiederici.
Lá chegando, com meus cento e vinte e sete quilos mal distribuídos em 1,86 metro de altura, cabelos revoltos e por demais longos para um velho de minha idade, senti-me o próprio Matusalém entre as jovens e elegantes mães que à entrada da escolinha se apinhavam, na ânsia de reencontrar seus tesouros.
Inabalável, mirei o primeiro andar e encarei uma escadinha que por certo não foi projetada para mamutes, muito embora seja obrigado a salientar sua mais absoluta segurança, já que dispõe de toda sorte de corrimões, telas, borrachas e afins, tudo multicolorido e asséptico. A verdadeira trilha do paraíso, pois leva aos querubins, serafins e arcanjos.
Imediatamente ao me avistar, minha princesa abriu seu mais farto sorriso, que compreende faíscas nos olhos e enrubescer de bochechas e caminhou em minha direção. O professor, um verdadeiro centurião etrusco, bombardeou-me com pertinentes perguntas, provando-me uma vez mais a qualidade desta instituição municipal, bem como a estirpe de seus funcionários.
Neste ínterim, sinto minha mão direita, justamente aquela que finda meu braço vitimado por agruras profissionais, ser puxada insistentemente para baixo por um par de mãozinhas brancas como a neve, pertencentes a um lourinho simpaticíssimo, colega de classe de minha amada GIULLIA.
O galã – pois louros, para uma moreno como eu, são sempre galãs – de mãozinhas brancas e olhar maroto, disparou-me, com aquele tom de voz que só os anjos possuem, uma pergunta precedida de minha palavra favorita. TIO.
Inquiriu-me o pimpolho:
-Tio, tio, por que você não corta esta barba? E continuou, “tá” muito grande....assim fica “feo”.
Confesso que quase desmaiei de emoção. Todas as pessoas com as quais convivo ou encontro, sejam amigos, inimigos, parentes, colegas, chefes, alunos, professores, gente de toda sorte, comungam esta opinião. Minha barba está realmente HORRÍVEL. Claro que levados pelos ritos da maturidade, pelos pudicos códigos da boa vizinhança ou até mesmo pela indiferença absoluta ao meu ser, NINGUÉM me diz nada.
Ninguém um ova!
Lá estava o meu anônimo gladiador nórdico, a plenos pulmões, exsudando o que seu íntimo gritava, com a coragem, a sabedoria, a grandeza, o despudor, a magia, o ímpeto e a onisciência das crianças.
Tal façanha, dirigir-me sua verdade, foi o maior presente que recebi este ano. Com sua voz doce, seu olhar amistoso e seu cabelinho louro, este jovem mancebo tocou-me de maneira indelével.
Não é todo momento que alguém que não conhecemos, que não depende ou precisa de nós, endereça-nos uma palavra de CARINHO. E ele, este encantador menino, de uma creche pública, de uma cidade média, de um pais que não se encontra entre os mais desenvolvidos culturalmente, o fez. E o fez com maestria.
Crianças. Sempre elas.
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